Tendo assistido aos debates realizados até agora no âmbito da pré-campanha para as Eleições Presidenciais, não encontrei grandes surpresas que não fossem a confirmação da causa inerente a uma certa alienação popular face a este evento. Para ser franco, não esperava que os candidatos confirmassem a razão das pessoas em passar algo ao lado deste acto eleitoral.
Desde o primeiro debate que a pré-campanha vai-se centrando num ataque tripartido a Cavaco Silva, por parte dos três outsiders a este acto eleitoral, e que o actual Presidente poderia ter resolvido com um pouco menos de ímpeto. Tais ataques, que em alguns casos trouxeram-me à memória algumas imagens de debates nos idos dos anos 70 do século passado, são um erro político crasso, caindo mal numa opinião pública que começa a exigir outro tipo de discurso… neste cenário, e pelo lado da esquerda, deve dizer-se que tem sido Manuel Alegre a tirar mais partido desta filosofia protagonizada pelos três candidatos menos expressivos, mantendo uma postura que lhe é muito própria, assim como alguma contenção discursiva face aos condicionamentos partidários que rodeiam a sua candidatura. Contudo, dado o cenário presente, afirma-se como um discurso quanto baste para assegurar a convergência da desilusão que vai singrando no universo político da esquerda (com excepção talvez do eleitorado fiel do PCP).
Agora que essa espuma das candidaturas mais periféricas tem tendência a se esbater na atmosfera que elas próprias entenderam criar, penso que os candidatos principais têm duas áreas fundamentais onde concentrarão os seus esforços. Por um lado, ambos se baterão pela ala mais “centrista” do PS, aquela que não perdoa o facto de Manuel Alegre se apresentar apoiado pelo BE e que até vê Cavaco Silva como um parceiro estratégico para um Governo socialista que forçosamente terá uma agenda muito condicionada não apenas pelas exigências externas, mas igualmente (e na sequência dessas exigências) pelo seu próprio desempenho nas medidas com que já se comprometeu. Por outro lado, penso que a captação de indecisos será outra estratégia a seguir pelos dois principais candidatos, e se Alegre ainda terá algum trabalho a realizar neste campo dentro do ambiente da esquerda, não nos esqueçamos que Cavaco Silva poderá ter que eventualmente “confirmar” alguns votos de uma direita mais moralista que apesar de uma primeira rendição aos ditames estratégicos do presente cenário eleitoral, pode sentir-se tentada a um voto de “protesto”, face principalmente à grande vantagem que Cavaco Silva apresenta face aos seus adversários.
Acima de tudo, é desejável que os candidatos se preocupem com a essência do seu discurso numa altura em que o percurso eleitoral sai dos estúdios da televisão para a rua, onde por vezes existe a tentação de popularizar as ideias em demasia. É algo a evitar depois de manifestações não apenas de falta de conhecimento dos poderes presidenciais, mas igualmente de capacidade de interpretação multidisciplinar de alguns problemas que afectam a sociedade portuguesa que se foram propagando pelos debates, e que não passaram despercebidas na opinião pública, cada vez mais informada. É importante que a mensagem geral na campanha seja de mobilização positiva para a discussão sobre os problemas do país, questionando ideias sem atacar pessoas, avançando soluções sem destruir as que de outras vozes vão surgindo.
É assim que, em política, se constrói um perfil de dignidade dos actos eleitorais, bem como dos candidatos que neles intervêm.