Aquivo do autor: Paulo Heleno

Sobre Paulo Heleno

Militante do PSD. Licenciado em Gestão de Empresas pelo ISLA de Leiria e frequência da Pós-Graduação em Lean Management pelo ISLA de Leiria/Comunidade Lean Thinking. Profissional independente na área de compra e venda de imóveis. Continue a ler a biografia do autor.

Crónica: Uma Nobre Desilusão

Devo confessar que tinha algumas expectativas na candidatura de Fernando Nobre, por contraponto às restantes candidaturas da área da esquerda política. Em primeiro lugar porque, ao contrário de Manuel Alegre em 2006, era uma candidatura protagonizada por uma figura exterior à classe política, apesar da recorrente questão da simpatia da ala soarista do PS (e do próprio Mário Soares). E em segundo lugar, estava perante uma personalidade que, dada a sua experiência riquíssima dentro da AMI, parecia trazer consigo alguma sabedoria sobre o que move a verdadeira vox populi nestes tempos de crise, as angústias, os receios do futuro, os erros passados…nesta dinâmica de emoções, achei que estávamos perante um candidato que como poucos saberia compreender toda envolvência da crise que nos rodeia, e de como a ambiguidade e em alguns casos a falácia do discurso político contribui sobremaneira para a criação de uma atmosfera negativa na sociedade em geral, e para a criação de uma espiral de efeitos imprevisíveis. Fernando Nobre parecia ser o candidato que, tendo contactado com cenários na realidade nacional e internacional onde tais sentimentos emergiram (e emergem), poderia contribuir para uma voz de orientação respeitada por todos. Não sendo o meu candidato, acreditava com alguma certeza das benfeitorias que a sua candidatura poderia trazer para uma dinâmica de afirmação pela cidadania que o povo português necessita cada vez mais de cultivar, e que se apresentava em contraste com um quadrado algo indefinido de Manuel Alegre, que sendo um indiscutível defensor desta causa, tem por vezes dificuldade em afirmá-la de forma positiva.

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Crónica: Conclusões dos Debates

Tendo assistido aos debates realizados até agora no âmbito da pré-campanha para as Eleições Presidenciais, não encontrei grandes surpresas que não fossem a confirmação da causa inerente a uma certa alienação popular face a este evento. Para ser franco, não esperava que os candidatos confirmassem a razão das pessoas em passar algo ao lado deste acto eleitoral.

Desde o primeiro debate que a pré-campanha vai-se centrando num ataque tripartido a Cavaco Silva, por parte dos três outsiders a este acto eleitoral, e que o actual Presidente poderia ter resolvido com um pouco menos de ímpeto. Tais ataques, que em alguns casos trouxeram-me à memória algumas imagens de debates nos idos dos anos 70 do século passado, são um erro político crasso, caindo mal numa opinião pública que começa a exigir outro tipo de discurso… neste cenário, e pelo lado da esquerda, deve dizer-se que tem sido Manuel Alegre a tirar mais partido desta filosofia protagonizada pelos três candidatos menos expressivos, mantendo uma postura que lhe é muito própria, assim como alguma contenção discursiva face aos condicionamentos partidários que rodeiam a sua candidatura. Contudo, dado o cenário presente, afirma-se como um discurso quanto baste para assegurar a convergência da desilusão que vai singrando no universo político da esquerda (com excepção talvez do eleitorado fiel do PCP).

Agora que essa espuma das candidaturas mais periféricas tem tendência a se esbater na atmosfera que elas próprias entenderam criar, penso que os candidatos principais têm duas áreas fundamentais onde concentrarão os seus esforços. Por um lado, ambos se baterão pela ala mais “centrista” do PS, aquela que não perdoa o facto de Manuel Alegre se apresentar apoiado pelo BE e que até vê Cavaco Silva como um parceiro estratégico para um Governo socialista que forçosamente terá uma agenda muito condicionada não apenas pelas exigências externas, mas igualmente (e na sequência dessas exigências) pelo seu próprio desempenho nas medidas com que já se comprometeu. Por outro lado, penso que a captação de indecisos será outra estratégia a seguir pelos dois principais candidatos, e se Alegre ainda terá algum trabalho a realizar neste campo dentro do ambiente da esquerda, não nos esqueçamos que Cavaco Silva poderá ter que eventualmente “confirmar” alguns votos de uma direita mais moralista que apesar de uma primeira rendição aos ditames estratégicos do presente cenário eleitoral, pode sentir-se tentada a um voto de “protesto”, face principalmente à grande vantagem que Cavaco Silva apresenta face aos seus adversários.

Acima de tudo, é desejável que os candidatos se preocupem com a essência do seu discurso numa altura em que o percurso eleitoral sai dos estúdios da televisão para a rua, onde por vezes existe a tentação de popularizar as ideias em demasia. É algo a evitar depois de manifestações não apenas de falta de conhecimento dos poderes presidenciais, mas igualmente de capacidade de interpretação multidisciplinar de alguns problemas que afectam a sociedade portuguesa que se foram propagando pelos debates, e que não passaram despercebidas na opinião pública, cada vez mais informada. É importante que a mensagem geral na campanha seja de mobilização positiva para a discussão sobre os problemas do país, questionando ideias sem atacar pessoas, avançando soluções sem destruir as que de outras vozes vão surgindo.

É assim que, em política, se constrói um perfil de dignidade dos actos eleitorais, bem como dos candidatos que neles intervêm.

Crónica: Os Candidatos

Após uma breve análise sobre o cenário económico e social em que surgem estas eleições, importa agora olhar um pouco para os candidatos e a sua prestação.

No campo do centro-direita, Cavaco Silva era o candidato mais que natural alguma interrogação em alguns sectores do CDS/PP. Em ambos os partidos, as iniciativas informais para a apresentação de um segundo candidato na área da direita esbarraram na inevitabilidade estratédentro da maioria do PSD, existindo apenas algumas dúvidas nos seus sectores mais conservadores em termos de costumes, após a questão do casamento homossexual, assunto que igualmente induziu gica da candidatura de Cavaco Silva, não apenas porque a imagem junto do eleitorado (tirando o infeliz caso das escutas), se mantém em níveis elevados, mas porque uniria todo o eleitorado de direita numa visão alinhada com as necessidades fundamentais do país em termos de reposicionamento económico no seio da realidade global, ao contrário do que aconteceu à esquerda, que se vai manifestando autista à realidade da própria opinião do povo português, bem expressa na última sondagem SIC/Expresso, por exemplo, sobre a intervenção económica em Portugal.

Analisado a conjuntura actual, a Cavaco Silva não se pede algo de verdadeiramente excepcional na campanha que não a consistência de um estilo muito pessoal que marcou o primeiro mandato, mantendo uma postura de Estado, consciente e dentro das ideias que defende para o país, assumindo de uma forma limitada pela amplitude constitucional que possui um posto de contrapeso em relação ao Governo e à sua acção, num conceito mais flexível da tão propalada cooperação estratégica. Será exactamente nesta flexibilidade que assentará muita da sua imagem pública, na essência de uma expectativa sobre a sua reacção face a factores como maus indicadores macroeconómicos logo no primeiro trimestre de 2010, ou maus indicadores, por exemplo, no que concerne à execução orçamental, dois parâmetros que estão bem sintonizados não apenas externamente, mas por uma opinião pública interna que cada vez mais vai tendo a consciência dos erros cometidos, ainda que se manifestando por vezes de forma extemporânea sobre os mesmos. É nestes parâmetros que se pode ilustrar a realidade das acções até agora desenvolvidas pelo candidato Cavaco Silva, quer na boa campanha que vai realizando através de suportes electrónicos, quer nas actividades que tem levado a cabo como candidato. Mantendo a estrutura da sua imagem de marca presidencial, o discurso do candidato não vai deixando de ter alguns recados sobre, por exemplo, o carácter efémero dos cargos políticos…

Já no âmbito da esquerda, o maior trunfo eleitoral para estas eleições surge como o maior símbolo da divisão clara que vai surgindo no dia-a-dia, aos olhos de todos. Com efeito, Manuel Alegre vê-se claramente dividido na gestão do seu “quadrado” (apelando ao seu genial texto). A aproximação ao BE, nomeadamente em antecipação ao hesitante apoio do PS, está claramente a condicionar toda a campanha, desde os timings à mensagem, revelando-se esta última algo desconexa e mesmo, em alguns pontos, quase agressiva, algo que não será indiferente a uma facção do PS que não acredita numa agenda presidencial em contraciclo com as necessidades do país a vários níveis (e que não será indiferente à candidatura de Cavaco Silva), e a outra (a soarista), para a qual a eleição de Alegre é uma impossibilidade quase dogmática. Unindo estas duas facções, está a natural atenção às dinâmicas de posicionamento para uma eventual corrida à liderança do partido, um foco de interesse comum com José Sócrates (embora em campos opostos), muito mais do que o apoio aberto ao candidato presidencial.

Assim, a campanha de Alegre deverá continuar de uma forma algo triste, muito rígida no espírito e nos meios, suportada verdadeiramente por uma ala esquerda do PS que não consegue discernir uma figura sucessora de Alegre, e um Bloco de Esquerda em permanente rota de colisão com o Governo. Pelo caminho, procuram-se disfarçar os paradoxos destas diferenças com um tipo de retórica ideológica que já não vai colhendo junto da maioria da população portuguesa, e que muitas vezes vai tocando não apenas a agressividade pessoal, mas igualmente, de forma persistente, um permanente regresso ao passado que se vai tornando algo gasto na espuma dos dias, e que choca abertamente com uma atmosfera de degradação da vida política que se vem intensificando nos últimos tempos. É algo que penaliza aquela que, na minha opinião, é uma das faces mais positivas da candidatura de Alegre, ou seja, o apelo a uma cidadania activa, mais organizada e mais interventiva, que até poderia servir como plataforma para um novo paradigma da acção partidária. Parece-me contudo muito diferente enquadrar esta ideia nos desafios modernos do país, e enquadrá-la num certo perfume que faz lembrar tempos idos. Os momentos são diferentes, e o tipo de intervenção que a população necessita de ter é, igualmente, também diferente.

Quanto às outras candidaturas, elas surgem maioritariamente à esquerda, como que confirmando um claro autismo estratégico. Francisco Lopes surge na já tradicional candidatura presidencial do PCP, procurando essencialmente uma marcação mais efectiva ao BE, bem como alguma tentativa de aproveitamento de algumas intenções de voto de protesto no próprio PS, convergindo nesse campo com a candidatura de Fernando Nobre, seja por algum desencanto com a aliança forçada ao BE (no primeiro caso), quer na ala soarista, (no segundo caso). Destas candidaturas, apenas a de Fernando Nobre poderá revelar algum tipo de surpresa, pois pode igualmente intrometer-se num centro–direita e numa direita mais humanista, dado o grande carisma do seu candidato em questões ligadas à intervenção social. Contudo, nunca será uma surpresa comparável à obtida por Alegre no último acto eleitoral.

Quanto a Defensor Moura e a Manuel João Vieira, estamos claramente a falar de dois players fora de qualquer cogitação a nível de resultados. São contudo candidaturas (assim como a de Fernando Nobre) que, apesar da solidez variável entre elas, são saudáveis em democracia, dado o carácter independente das mesmas face ao core das máquinas partidárias e que, a meu ver, não sendo candidatos dentro da faixa da eleição, deverão ter a consciência da importância dos seus movimentos no campo da cidadania, que tanta falta faz para Portugal ser efectivamente um país mais maduro, e com uma melhor consciência do caminho a seguir nos tempos conturbados em que vivemos.

Crónica: Por entre as eleições…

As eleições presidenciais a realizar em Janeiro de 2011 podem marcar um ponto crítico de convergência entre realidades económicas e sociais que caracterizaram o país nos últimos anos, e a necessidade de encontrar soluções alternativas para o futuro, no contexto de um reposicionamento estratégico do país que se afigura fundamental, procurando um clima de contraciclo face à indefinição que, no momento presente, define a União Europeia a vários níveis. Será então importante, numa primeira crónica, e antes de abordar a dinâmica das eleições e dos candidatos, analisar em linhas gerais o cenário que se abre ao futuro Presidente da República.

No campo económico, que sem dúvida assume uma preponderância primeva na actualidade, as principais apostas deverão incidir em três grandes alicerces: em primeiro lugar, o controlo da dívida pública que se foi avolumando nos últimos 10 a 15 anos, devendo as acções neste campo assentar, para além de um aumento de receita fiscal que já vai atingindo o máximo da capacidade dos contribuintes individuais e colectivos, num planeamento e execução sérias, a curto/médio prazo, de uma profunda reestruturação do Estado, quer na perspectiva da administração, quer na perspectiva empresarial, rumando a um mais eficiente conhecimento e controle do aparelho estatal na sua totalidade e que permita, em última análise, a implementação de um novo paradigma orçamental, baseado no orçamento de base zero. Em segundo lugar, afigura-se como fundamental a captação do investimento externo, que embora encontrando alguma base no ponto anterior (nomeadamente no contexto da desburocratização de processos), exige reestruturações profundas em áreas como a justiça, os incentivos fiscais à implantação de unidades multinacionais, uma política de investimentos públicos mais racional e mais voltada para a eficiência prática do objecto desse investimento (com benefícios claros para o resto do tecido empresarial), e uma flexibilização laboral que não passará tanto pela profundidade com que se pede a sua implantação, mas para um caminho baseado na prática aplicação do Código de Trabalho, nomeadamente a partir da sua última revisão. Seria uma captação de investimento estrangeiro não apenas direccionada para as áreas inerentes à “nova economia”, tão propaladas pelo Governo num passado recente, mas igualmente para áreas dentro dos sectores tradicionais, independentemente da sua natureza, não apenas compensando a falta de capacidade de investimento interno que caracteriza a grande generalidade dos pequenos e médios empresários, mas igualmente estimulando estes à união dos seus esforços, num processo que igualmente deveria ser alvo de apoios com vista à criação de um tecido industrial mais estruturado e competitivo, mas igualmente gerador de emprego, a par de políticas de estímulo efectivo ao empreendedorismo. Tudo isto complementando uma aposta nas exportações (o último dos três itens acima referidos) que, embora válida no contexto da criação de riqueza nacional e contenção/redução do défice externo, poderá ser bastante complexa face à valorização do Euro, tradução da vontade do eixo Paris-Berlim na manutenção da força da divisa europeia.

No conjunto, estamos perante um quadro que não poderá ser implementado sem a existência de um cenário de contestação por parte da sociedade.

A este nível social, vamos assistindo uma clara e justificada insatisfação, que vai assumindo algum crescendo. Se é verdade que uma das causas pode ser o efeito das consequências práticas do que acima foi exposto em matéria económica (diminuição de eficiência de serviços públicos no curto prazo, desemprego, baixa de salários, aumento da carga fiscal, etc), certo é que, em conjunto, cresce de forma sensível um sentimento de mau estar face ao clima político, alimentado por uma mediatização algo selvagem, mas elaborada, que vinca de uma forma progressiva e intensa um ambiente de planificação estratégica de cenários eleitorais, enquanto a realidade crua das rotinas diárias lembra que a mera manutenção de um posto de trabalho pode ser uma luta progressivamente mais árdua e de resultado mais incerto, e que as grandes dificuldades inerentes às correcções necessárias ao nivelamento económico são, no presente, fortemente baseadas na imputação directa dos seus rendimentos e das suas poupanças, com impactos consideráveis não apenas no equilíbrio de cada indivíduo, mas igualmente na sua estrutura familiar e na sociedade como o todo que forma a soma de cada vez mais partes descontentes.

Não sendo a conflitualidade social violenta uma característica do povo português no período mais recente pós-entrada na União Europeia, o certo é que nesse período, nunca como agora todo um país se encontra numa profunda encruzilhada, e nunca como hoje se dá a necessidade da anteriormente referida inversão do paradigma de vivências individuais e sociais, ao mesmo tempo em que se caminha numa linha muito ténue entre vários riscos que devem ser assumidos, do ponto de vista económico e social, para que o país sobreviva ante a rude parede de desconfiança que perante ele se vai erguendo numa Europa que mesmo a sua própria moeda não vai tendo como certa perante ataques de diversa ordem. De uma forma mais lenta do que a crescente procura por associações de apoio social, e por entre o movimento de descontentamento mais cívico que vai surgindo, por exemplo, nas redes sociais, vai sendo visível a formação de focos muito preocupantes de perturbação social, que se alimentam de um vazio de cidadania activa que há muito se instalou, e do cenário algo penoso que se adivinha para 2011.

É neste cenário, que resumidamente explana um catálogo de necessidades de mudança fundamental num país que exibe, ao tempo presente, pouca sustentabilidade económica e social para as mesmas, que surgem as eleições presidenciais de 2011. Para o candidato que emergir vitorioso das mesmas, ergue-se a enorme responsabilidade de ultrapassar a retórica que vai caracterizando a espuma dos dias que passam, e ajudar a moralizar um povo cada vez mais descrente das suas capacidades, fazendo-o acreditar de que não existem dois países separados por uma qualquer divisão de classes ou hierarquias profissionais ou de negócios, mas apenas um, que necessita de se juntar para empreender a sua árdua e complexa recuperação num contexto global que em menos de 3 anos se modificou de forma completa, fazendo-nos acordar de um doce sono que desde a entrada na Zona Euro, nos afagava os sonhos, providenciando cada um dos nossos desejos.