Aquivo do autor: João Delgado

Sobre João Delgado

Licenciado em Sociologia e Mestre em Ciências da Educação. Foi militante do PCP de 1979 a 1991 e do Bloco de Esquerda desde a sua fundação. Demitiu-se da Mesa Nacional do BE na sequência do processo de decisão do apoio a Manuel Alegre. Editor do site vermelhos.net. Continue a ler a biografia do autor.

Crónica: Hoje somos todos José Manuel Coelho

Então um site de esquerda apoia o José Manuel Coelho?”, é a interrogação que mais temos recebido a propósito da petição lançada pelo vermelhos.net com o lema “Todos os candidatos têm direito ao espaço público informativo”.

Compreendemos a questão que nos é colocada, mas essa incompreensão revela também como é difícil para alguns separarem as suas convicções político-ideológicas particulares daquilo que são os valores fundamentais da democracia. E o que aconteceu com a decisão de excluir José Manuel Coelho dos debates foi um acto anti-democrático que, agora que se confirma a candidatura do mesmo, tem de ser corrigido.

Também já nos foi colocada a situação de Luís Botelho Ribeiro, que continua a pugnar pela admissão como candidato, e, como é óbvio, tudo o que dizemos em relação a JM Coelho aplica-se a quem mais venha a validar a candidatura.

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Crónica: Defensor Moura – de joker a trunfo à esquerda?

Defensor Moura tem ainda um debate, com Francisco Lopes, mas terminou já o ciclo que de facto mais poderia interessar aos eleitores a quem se dirige, assumidamente os socialistas resistentes a Manuel Alegre, o eleitorado de ”centro-esquerda”, como o próprio diz, que se poderia encaminhar para a abstenção, ou mesmo para Cavaco.

O anúncio da candidatura à presidência da República do ex-presidente da Câmara de Viana de Castelo foi recebido pela comunicação social, e pelos opinadores de serviço, no habitual tom jocoso reservado a quem, vindo da província, se atreve a tentar entrar nos jogos palacianos da capital.

Defensor aguentou esse primeiro impacto imperturbável, definiu e colocou na agenda os seus temas de campanha (pela regionalização, pela reforma administrativa contra a corrupção e o clientelismo) mas, apesar disso, chegou aos confrontos com os outros candidatos ainda com o estatuto de joker.

Mas os debates correram bem. Correram até muito bem, face às expectativas, e Defensor passou de ingénuo médico da província para o homem que aplicou um KO ao embasbacado Cavaco Silva, que ainda hoje não deve saber o que lhe passou por cima. Juntando a este surpreendente debate a presença serena, mas determinada, nas disputas com Alegre e Nobre, Defensor Moura pode bem ter passado o ser o trunfo da esquerda nesta primeira volta, se conseguir congregar o voto do eleitorado PS que se recusa, pelo menos na primeira volta, a votar Alegre, e que também não se tem mostrado, a acreditar nas sondagens, particularmente seduzido por Fernando Nobre.

Feitas as contas, um resultado eleitoral de 8 a 10% para Defensor pode significar segunda volta, onde (e só aí) o contabilista do grande capital pode ser finalmente enviado para uma tranquila reforma. Já merece, porque desde 1985 (ou 81, se quisermos) que o personagem tem estado a destruir paulatinamente aquilo a que ainda gosto de chamar as conquistas de Abril, promovendo a fortuna dos seus colaboradores, dos banqueiros e do empresariado rentista.

Todos os votos contam, e os de Defensor contam à esquerda.

Crónica: Continuidade ou ruptura?

As sondagens divulgadas nos últimos dias retratam uma evidência do Portugal democrático, que é o facto de o presidente em exercício recolher a maioria das intenções de voto. Tanto assim tem sido, que por norma os desafiantes ao segundo mandato ou são soluções de recurso para os partidos, ou são pré-candidaturas para confirmação daí a cinco anos.

Com a excepção de 1980, em que a direita revanchista apresentou a forte candidatura do general Soares Carneiro, (o que levou a uma união PS/PCP pela reeleição de Eanes), em 91 foram Basílio Horta (CDS) e Carlos Carvalhas (PCP) a contestarem sem sucesso a reeleição de Soares, e em 2001 Ferreira do Amaral (PSD), António Abreu (PCP) e Fernando Rosas (BE), a manifestarem oposição ao bis de Jorge Sampaio, que reuniu o pleno da esquerda na primeira eleição (ver outros candidatos aqui).

A reeleição do Presidente da República é, pois, uma não notícia, sendo então a putativa notícia a apresentação de um candidato forte, que colocasse em questão o plebiscito. Com um governo PS, poder-se-ia pensar que tal aconteceria em 2011, mas as circunstâncias particulares rapidamente afastaram essa hipótese. Mergulhado nas suas intrínsecas teias, Sócrates quis tudo menos abrir uma nova frente de batalha, e por isso aceitou, sem convicção, Alegre como o representante da área socialista.

Antes de dar tempo ao PS, o Bloco de Esquerda jogou a sua cartada, capturando Alegre como o candidato da esquerda contra o neo-liberalismo. E assim Alegre se viu triste (ignóbil trocadilho), perdendo a força da voz livre que teve na primeira candidatura. Não esquecendo que, nessa circunstância, a força lhe foi dada pelo seu partido, ao recusar-lhe o apoio, optando pelo remake (em farsa) de Soares.

No actual cenário, e podendo ter optado por uma solução mais forte, o PCP avançou com Francisco Lopes, um dirigente desconhecido do eleitorado, e com uma campanha, até à data, conduzida para o voto militante.

Lembrando que BE e PCP nunca equacionaram uma candidatura comum, dificilmente ganhadora, mas que expressasse nas urnas uma vontade de ruptura com o centrão, que governa o país há mais de três décadas.

Fernando Nobre, o possível outsider, não conseguiu ainda qualquer protagonismo, percorrendo o país há um par de meses sem reflexo no seu resultado nas sondagens ou na arena mediática.

Para um eleitor de esquerda (e permitam-me recordar o meu apoio crítico a Nobre), estas presidenciais arriscam-se a ser um doloroso manual do que não se deve fazer, quando se tem como objectivo a vitória, ou, no mínimo, uma campanha mobilizadora e recrutadora de forças para a luta contra os sucessivos PEC’s.

Concluindo daqui que, à esquerda, os protagonistas envolvidos procuraram mais o protagonismo das suas particulares bandeiras do que uma verdadeira alternativa ao presidente em exercício (e ex-longo-primeiro-ministro), que é um dos principais responsáveis pelo estado da nação.

Esperemos que a campanha eleitoral traga debate positivo, que leve os cidadãos a uma reflexão sobre quem de facto querem na presidência da república. Um situacionista ou uma mudança de paradigma?

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