Crónica: Por entre as eleições…

As eleições presidenciais a realizar em Janeiro de 2011 podem marcar um ponto crítico de convergência entre realidades económicas e sociais que caracterizaram o país nos últimos anos, e a necessidade de encontrar soluções alternativas para o futuro, no contexto de um reposicionamento estratégico do país que se afigura fundamental, procurando um clima de contraciclo face à indefinição que, no momento presente, define a União Europeia a vários níveis. Será então importante, numa primeira crónica, e antes de abordar a dinâmica das eleições e dos candidatos, analisar em linhas gerais o cenário que se abre ao futuro Presidente da República.

No campo económico, que sem dúvida assume uma preponderância primeva na actualidade, as principais apostas deverão incidir em três grandes alicerces: em primeiro lugar, o controlo da dívida pública que se foi avolumando nos últimos 10 a 15 anos, devendo as acções neste campo assentar, para além de um aumento de receita fiscal que já vai atingindo o máximo da capacidade dos contribuintes individuais e colectivos, num planeamento e execução sérias, a curto/médio prazo, de uma profunda reestruturação do Estado, quer na perspectiva da administração, quer na perspectiva empresarial, rumando a um mais eficiente conhecimento e controle do aparelho estatal na sua totalidade e que permita, em última análise, a implementação de um novo paradigma orçamental, baseado no orçamento de base zero. Em segundo lugar, afigura-se como fundamental a captação do investimento externo, que embora encontrando alguma base no ponto anterior (nomeadamente no contexto da desburocratização de processos), exige reestruturações profundas em áreas como a justiça, os incentivos fiscais à implantação de unidades multinacionais, uma política de investimentos públicos mais racional e mais voltada para a eficiência prática do objecto desse investimento (com benefícios claros para o resto do tecido empresarial), e uma flexibilização laboral que não passará tanto pela profundidade com que se pede a sua implantação, mas para um caminho baseado na prática aplicação do Código de Trabalho, nomeadamente a partir da sua última revisão. Seria uma captação de investimento estrangeiro não apenas direccionada para as áreas inerentes à “nova economia”, tão propaladas pelo Governo num passado recente, mas igualmente para áreas dentro dos sectores tradicionais, independentemente da sua natureza, não apenas compensando a falta de capacidade de investimento interno que caracteriza a grande generalidade dos pequenos e médios empresários, mas igualmente estimulando estes à união dos seus esforços, num processo que igualmente deveria ser alvo de apoios com vista à criação de um tecido industrial mais estruturado e competitivo, mas igualmente gerador de emprego, a par de políticas de estímulo efectivo ao empreendedorismo. Tudo isto complementando uma aposta nas exportações (o último dos três itens acima referidos) que, embora válida no contexto da criação de riqueza nacional e contenção/redução do défice externo, poderá ser bastante complexa face à valorização do Euro, tradução da vontade do eixo Paris-Berlim na manutenção da força da divisa europeia.

No conjunto, estamos perante um quadro que não poderá ser implementado sem a existência de um cenário de contestação por parte da sociedade.

A este nível social, vamos assistindo uma clara e justificada insatisfação, que vai assumindo algum crescendo. Se é verdade que uma das causas pode ser o efeito das consequências práticas do que acima foi exposto em matéria económica (diminuição de eficiência de serviços públicos no curto prazo, desemprego, baixa de salários, aumento da carga fiscal, etc), certo é que, em conjunto, cresce de forma sensível um sentimento de mau estar face ao clima político, alimentado por uma mediatização algo selvagem, mas elaborada, que vinca de uma forma progressiva e intensa um ambiente de planificação estratégica de cenários eleitorais, enquanto a realidade crua das rotinas diárias lembra que a mera manutenção de um posto de trabalho pode ser uma luta progressivamente mais árdua e de resultado mais incerto, e que as grandes dificuldades inerentes às correcções necessárias ao nivelamento económico são, no presente, fortemente baseadas na imputação directa dos seus rendimentos e das suas poupanças, com impactos consideráveis não apenas no equilíbrio de cada indivíduo, mas igualmente na sua estrutura familiar e na sociedade como o todo que forma a soma de cada vez mais partes descontentes.

Não sendo a conflitualidade social violenta uma característica do povo português no período mais recente pós-entrada na União Europeia, o certo é que nesse período, nunca como agora todo um país se encontra numa profunda encruzilhada, e nunca como hoje se dá a necessidade da anteriormente referida inversão do paradigma de vivências individuais e sociais, ao mesmo tempo em que se caminha numa linha muito ténue entre vários riscos que devem ser assumidos, do ponto de vista económico e social, para que o país sobreviva ante a rude parede de desconfiança que perante ele se vai erguendo numa Europa que mesmo a sua própria moeda não vai tendo como certa perante ataques de diversa ordem. De uma forma mais lenta do que a crescente procura por associações de apoio social, e por entre o movimento de descontentamento mais cívico que vai surgindo, por exemplo, nas redes sociais, vai sendo visível a formação de focos muito preocupantes de perturbação social, que se alimentam de um vazio de cidadania activa que há muito se instalou, e do cenário algo penoso que se adivinha para 2011.

É neste cenário, que resumidamente explana um catálogo de necessidades de mudança fundamental num país que exibe, ao tempo presente, pouca sustentabilidade económica e social para as mesmas, que surgem as eleições presidenciais de 2011. Para o candidato que emergir vitorioso das mesmas, ergue-se a enorme responsabilidade de ultrapassar a retórica que vai caracterizando a espuma dos dias que passam, e ajudar a moralizar um povo cada vez mais descrente das suas capacidades, fazendo-o acreditar de que não existem dois países separados por uma qualquer divisão de classes ou hierarquias profissionais ou de negócios, mas apenas um, que necessita de se juntar para empreender a sua árdua e complexa recuperação num contexto global que em menos de 3 anos se modificou de forma completa, fazendo-nos acordar de um doce sono que desde a entrada na Zona Euro, nos afagava os sonhos, providenciando cada um dos nossos desejos.

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